Pra estudar game design não é só fazer uma faculdade de jogos e comprar livros que falem sobre isso? Ou será que eu posso aprender só jogando e observando vários estilos de jogos? A resposta mais correta, para ambas as soluções é: depende. Não existe uma resposta objetiva para qualquer questão sobre estudar game design.

Apesar da análise de jogos de forma antropológica ser muito antiga, o estudo de game design é algo extremamente recente. O que é jogo? Sem conseguir responder essa questão não tem como você sabe o que estudar. E olha, as definições de “o que é jogo” variam TANTO, mas TANTO, que na verdade você precisa encontrar a sua verdade, a sua definição e só daí tentar descobrir qual o caminho que você precisa seguir.

Vamos ver o que o Google nos diz: Jogo é um termo do latim “jocus” que significa gracejo, brincadeira, divertimento. O jogo é uma atividade física ou intelectual que integra um sistema de regras e define um indivíduo (ou um grupo) vencedor e outro perdedor.
E no Wikipedia? Jogo é toda e qualquer atividade em que exista a figura do jogador (como indivíduo praticante) e regras que podem ser para ambiente restrito ou livre.

É, essa é a interpretação clássica. Essas definições vêm de uma linha de estudo conhecida como LUDOLOGIA. Basicamente a Ludologia estuda os jogos como um fenômeno cultural e seu impacto na sociedade.
O intelectual francês Roger Caillois estudou séculos de criação de jogos e os dividiu em quatro tipos:
– Agon, é o jogo de força, de competição.
– Alea, é o jogo de azar, de aleatoriedade.
– Ilinx, é o que desafia nossas sensações ou capacidades.
– Mimicry, é o que simula realidades fantásticas.

Esses quatro tipos de jogos possuem lógicas e base de ferramentas completamente diferentes e precisariam ser estudados separadamente. O que os une foi descrito pelo historiador Johan Huizinga em 1938 no seu livro Homo Ludens, praticamente a bíblia da Ludologia. Ele trata o jogo como algo inato ao homem e até aos animais, uma atividade voluntária, exercida dentro de determinados limites de tempo e de espaço, segundo regras consentidas, absolutamente obrigatórias, com um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria, e uma consciência diferente da sua vida cotidiana.

Mas há uma corrente que difere na forma de observar os jogos, onde toda e qualquer mecânica basicamente é um instrumento para se contar uma narrativa. A Narratologia estuda game design da mesma forma como se conta uma história. Há um começo, onde se apresenta o (os) personagens e o ambiente, há um meio, onde o jogador interage com um conjunto de regras, que o leva a um fim, o objetivo do jogo que o aguarda com uma recompensa. Nessa lógica não há jogo sem recompensa, pois não há o que mova o jogador através das fases do jogo. A recompensa, claro, não precisa ser exatamente um presente só no final: o próprio desafio, desde que seja capaz de mover o personagem de ponto A a ponto B, já encaixa no conceito de recompensa.

Qualquer jogo pode ser analisado por esse prisma. No xadrez por exemplo. Começa o jogo, personagens e ambiente apresentados. Seguimos para o meio. Seguindo o corpo de regras, sabendo ou não exatamente o que devo fazer pra ganhar, eu movo uma peça. O adversário reage. Agora eu preciso reagir a ele, uma situação diferente da anterior o que implica que nossa narrativa está caminhando… e eu jogo, ele joga, eu jogo, ele joga… até chegarmos à conclusão. Um dos jogadores é declarado o vencedor.

O termo Narratologia sequer define uma corrente de estudo de Game Design, na verdade é um estudo sistemático de narrativas em qualquer aplicação. É possível rastrear suas origens até em Aristóteles, apesar do termo só ter sido criado em 69 pelo filósofo belga Tzvetan Todorov.

Olha só… Sempre que você for estudar Game Design essas vão ser as mais populares linhas de estudo que você irá encontrar. E tem muito conteúdo pra se aprender aqui. Porém, pra mim, elas têm um problema fundamental. As duas começam a partir de uma análise histórica e antropológica dos jogos, seguindo daí as suas argumentações. Ou seja… elas já começam em cima de referências. Começam listando e entendendo o que criamos no passado para então desenvolver ferramentas.

Você já parou pra pensar no que faz você tomar decisões? Qualquer decisão. O que te fez vir até aqui assistir esse vídeo?
A Teoria de Jogos é uma ciência exata que estuda a matemática por trás de interações sociais. Essa é uma teoria que começou a ser desenhada pelo matemático John Nash nos anos 50, que você deve conhecer do filme Uma Mente Brilhante.

Por essa lógica um jogo é qualquer interação entre uma ou mais pessoas em que a recompensa é afetada pelas decisões tomadas pelos jogadores. Na verdade a teoria original do John Nash analisava unicamente a interação entre múltiplos indivíduos, mas ao longo dos anos ela avançou consideravelmente se tornando base para matemática financeira e dinâmicas de gameficação. Gameficação é um lance que eu ainda vou fazer um vídeo inteiro sobre…

Nessa lógica os jogos serão divididos em apenas duas categorias: Competitivos e Cooperativos. Competitivos vão cobrir interações sociais onde haverão vencedores e perdedores, e espera-se que os jogadores sejam espertos para conquistar seus objetivos. Cooperativos são as interações onde todos precisam colaborar para atingir um objetivo comum, e espera-se que a conclusão seja justa e recompensadora ao esforço de cada um dos participantes.

Curiosamente a preocupação maior do game designer é inversa à experiência do jogador nos dois casos. Para os jogos competitivos o designer deve garantir que os jogadores tenham chances similares de vitória mesmo começando com privilégios diferentes, enquanto o designer dos jogos colaborativos deve se preocupar com a motivação individual que vai garantir cada um fazendo sua parte.

O estudo da Teoria dos Jogos com certeza vai te ajudar a desenvolver seu joguinho, mas é curioso compreender o quão profundas essas experiências podem ser. Um designer de jogos não desenha diversão… ele desenha experiências. Como disse Huizinga, “É possível negar, se quiser, quase todas as abstrações: a justiça, a beleza, o bem, Deus. É possível negar-se a seriedade, mas não o jogo. A existência do jogo é inegável.”

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